O Ginásio Poliesportivo de Rio Doce sediou, na última terça-feira (31), uma Reunião Pública entre o Ibama, a Samarco e os atingidos pelo rompimento da barragem de Fundão. O encontro foi pautado no manejo dos mais de nove milhões de metros cúbicos de rejeito que estão depositados no fundo da represa da Usina Hidrelétrica (UHE) Risoleta Neves desde a tragédia ambiental, ocorrida em 5 de novembro de 2015.
A reunião buscou promover um espaço de escuta junto às comunidades na elaboração de um Termo de Referência (TR) desenvolvido pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Segundo o superintendente regional do Ibama em Minas Gerais, Sérgio Augusto Domingues, o documento servirá como base para um Estudo Ambiental que será construído a partir de pesquisas do Instituto junto a Samarco, que definirão o destino dos rejeitos.
“Esse termo de referência busca maiores esclarecimentos e mais estudos por parte da Samarco para que a equipe técnica da Diretoria de Licenciamento Ambiental do Ibama decida pela remoção total dos nove milhões de metros cúbicos de rejeito, por uma remoção parcial ou pela manutenção desse rejeito como está”, disse.
O superintendente afirmou que essa decisão não será tomada no TR. “Ela só será tomada quando a Samarco realizar todas as estudos que o Ibama está demandando nesse Termo de Referência. Eles vão retornar esses estudos para que o Ibama tome essa decisão”.
Processo de escuta das comunidades
Esse foi o segundo encontro que discutiu o tema. Anteriormente, no dia 18 de março, o Ibama e a Samarco se reuniram com os atingidos em Linhares (ES). Segundo Aloísio Lopes, membro da coordenação da Assessoria Técnica Independente (ATI) Centro Rosa Fortini, as comunidades têm se mantido cada vez mais engajadas, em busca de respostas.
“As pessoas têm muitas dúvidas e há muita insegurança sobre o grau de contaminação que esse rejeito possui. Então, retirar esse rejeito pode ser um problema, devido à movimentação, o transporte, decidir onde vai depositar, mas manter o rejeito também pode ser um problema. Por isso, há a necessidade de conhecer o grau de contaminação”, destacou.
Na semana anterior, o Centro Rosa Fortini foi eleito a ATI dos Faiscadores e Faiscadoras Tradicionais de Rio Doce, Santa Cruz do Escalvado e da comunidade de Chopotó em Ponte Nova. Eles receberão apoio específico da ATI para os interesses e direitos específicos da categoria, inclusive nas decisões que envolvem a retirada dos rejeitos.
“A retirada desse rejeito ou a manutenção significa uma intervenção muito drástica no território, que interfere nos modos de vida dessas comunidades. Para isso, existe uma assessoria técnica para ajudá-los a ter essa compreensão”, afirmou. Para ele, também há a “necessidade de realizar um estudo etno-ambiental, para entender como essas comunidades se relacionam com as águas, com o lago, com o rio e de que forma elas foram impactadas e de que forma podem ser reparadas”, concluiu.
Para José Márcio Lazarino, que é representante dos atingidos no Conselho Federal e na Instância Mineira de Participação Social, são necessários estudos que comprovem a qualidade da água. “A gente bate o tempo todo que não há um estudo para a qualidade da água, não há estudo para a qualidade do pescado e não sabemos se o rejeito é contaminante e traz danos à saúde ou não, porque a gente até hoje não tem esse estudo”, afirmou.
O morador também deu parecer positivo à retirada dos rejeitos. “O que nós queremos é que tirem o rejeito. Porque senão vamos ficar com o impacto dentro do rio para o resto da nossa vida”, encerrou.

Proposta de um Programa de Recuperação Ambiental é apresentada
O prefeito de Rio Doce, Silvério Joaquim da Luz, discordou do que foi proposto pela Samarco e apresentou um Programa de Recuperação Ambiental. O documento, apresentado durante a Reunião Pública, foi desenvolvido em conjunto com a Associação dos Municípios da Microrregião do Vale do Piranga (Amapi), a Associação Nacional de Municípios e Meio Ambiente (Annama), e outras entidades.
“O que nós estamos estabelecendo e entregando para o Ibama é que nós não concordamos em hipótese alguma com a forma que eles estão querendo tratar aos rejeitos de Candonga”. Ele completou: “O que nós estamos propondo é um amplo programa de Recuperação Ambiental, criando um corredor ecológico, desde onde aconteceu o rompimento até a Foz, criando parques, ligando esses parques (…), promovendo o desenvolvimento do turismo e um grande programa de Saneamento Básico em toda a calha do Rio Doce”.
Samarco apresenta estudos iniciais
Em nota enviada à Rádio Ponte Nova, a Samarco informou que protocolou junto ao Ibama, em novembro de 2025, os Estudos Conceituais sobre o manejo dos rejeitos na UHE Risoleta Neves.
Segundo a empresa de mineração, o documento apresenta soluções técnicas e análises de viabilidade, “considerando a experiência da Samarco no tema, devido às atividades similares já realizadas no território que subsidiarão a decisão do órgão ambiental”. Ao final, a mineradora destacou que “a participação das comunidades é etapa fundamental para a definição da melhor estratégia socioambiental para a região”.
Leia a nota na íntegra:
A Samarco informa que protocolou junto ao Ibama, em novembro de 2025, os Estudos Conceituais sobre o manejo de rejeitos/sedimentos na UHE Risoleta Neves (Candonga). O documento apresenta soluções técnicas e análises de viabilidade, considerando a experiência da Samarco no tema devido as atividades similares já realizadas no território, que subsidiarão a decisão do
órgão ambiental.
Duas reuniões públicas estão sendo realizadas para discutir os estudos: em 18/3, em Linhares (ES), e outra hoje (31/3), em Rio Doce (MG). Além disso, houve a ampliação do prazo de consulta pública determinada pelo Ibama, entendendo que a participação das comunidades é etapa fundamental para a definição da melhor estratégia socioambiental para a região.
Texto e imagens: Êmily Reis